Aprendiz de Maestro, da TUCCA, completa 15 anos e comemora com Aniversário Surpresa na Sala São Paulo

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O Aniversário Surpresa celebrou os 15 anos do Aprendiz de Maestro, única série de música clássica para crianças no País – também não há registro de exibições nesse formato em outros cantos do mundo –, em 7 de outubro na Sala São Paulo. A série que conecta música erudita, circo, dança e teatro surgiu para angariar recursos para a TUCCA – Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer e já foi vista por 16 mil espectadores, beneficiando cerca de 4 mil crianças e jovens.

A respeito de O Aniversário Surpresa, o Panis & Circus, que apoia a série, conta que a montagem não tratou da festa em si, mas, sim, dos preparativos. O texto escrito e dirigido por Paulo Rogério Lopes destrinchou as etapas do festejo, encenadas com o auxílio de bailarinos (Cia. Dans la Danse) e alinhavadas por trechos de obras clássicas contextualizadas pelo regente, João Maurício Galindo. Nesta edição, não houve um compositor homenageado, nem um gênero específico.

Como ocorre na maioria dos episódios, a Sinfonieta Fortíssima introduziu os primeiros acordes e Galindo brincou que aquele pedacinho de música lembrava algo do tipo “limpem os trilhos”. Uma homenagem à Sala São Paulo – antiga Estrada de Ferro Sorocabana – casa de espetáculo que vale a pena ser vista por sua beleza e recebe O Aprendiz de Maestro desde a sua criação.

Maria Papa, Figaró Lá e o Princípe Tuquinha

Maria Papaguena (Marta Caetano), uma produtora de eventos intergalácticos, chega de supetão ao lado de suas quatro assistentes (bailarinas). Maria Papá, como prefere ser chamada, disse que o Príncipe Tuquinha está completando 15 mil anos. Assim, com dupla comemoração, o jeito foi executar os dois acordes em um compasso só, como sugeriu o maestro.

Um trecho da obra de Gioachino Antonio Rossini é tocado para evocar o personagem Figaró Lá (Eduardo Silva), um experiente mestre de cerimônia que só pode ser acionado por meio da música, pois habita um planeta desprovido dos serviços de telefonia celular. O convidado também chega com quatro assistentes (bailarinos).

Como primeira tarefa, Maria Papá e Figaró Lá debatem sobre o endereço da festança. Na Terra ou no planeta Tucca? Na cratera de um vulcão ou em uma caverna? Saturno, rodeado por anéis, foi eleito o endereço da balada. Mas, qual a melhor época para se festejar nesse planeta? Para ajudar na escolha, o maestro contou que conhecia um italiano chamado Antonio Vivaldi que entendi tudo de estações. Ao som de trechos dos primeiros sonetos para violino de As Quatro Estações, os oito dançarinos encenaram diferentes estilos e todos chegam à conclusão de que o outono era a época mais indicada para a solenidade.
Para comer, Galindo sugeriu o Filé Rossini, um prato inspirado no francês Gioacchino Rossini. “Diz a lenda que o compositor de ópera escrevia só a primeira parte dos sonetos e ia para casa preparar o jantar para os músicos que chegavam esfomeados após os ensaios”, revelou o maestro.

Por falar em Europa, recordam a história de uma cigarra que se apaixona por um toureiro. O touro (em figurino que lembra o folclórico bumba-meu-boi) também serve de mote para mais uma faixa, mas não entra no cardápio, pois Maria Papa faz questão de um menu vegetariano.

De sobremesa, O Quebra Nozes, de Tchaikovsky, foi a pedida para agradar o paladar de terráqueos e alienígenas. Para queimar as calorias, o Samba Lelê, de Villa-Lobos, com os solistas Luiz Eduardo Guimarães e Sheila Negro, e o Coral Vozes Paulistanas. O baile começou ao som de Danúbio Azul, de Strauss, momento no qual crianças e adultos foram convidados para ‘valsar’ batendo as mães e, depois, os pés – sem perder a elegância.

O diretor Paulo Rogério, La Mínima e Galpão do Circo

Diretor e autor da maioria dos episódios nos últimos cinco anos, Paulo Rogério Lopes ingressou no Aprendiz como assistente da antiga diretora, Regina Galdino. Paulinho, como é conhecido, trouxe mobilidade à série investindo na ampliação das parceiras cênicas, como as companhias Galpão do Circo e Lá Mínima.

Veterano no teatro, o diretor disse que aprendeu muito com a série. Ele ressalta que cada espetáculo é único, mesmo quando se trata de uma reprise. “Logo que o Domingos Montagner estourou na novela da Globo tínhamos uma apresentação programada do Natal do Seu Nicolau, com a Cia. Lá Mínima (companhia criada por ele e Fernando Sampaio). E Domingos, apesar do corre-corre, apareceu na sexta para o ensaio à escola (normalmente há um ensaio corrido para alunos da rede pública) e para o espetáculo do sábado de manhã. Tivemos erros fantásticos, como o momento em que ele encontrou em cena, pensou e disse que não era a vez dele. Ou quando ele perguntou ao maestro o que ele tinha que dizer”. O maestro tem sempre uma ‘cola’ das principais falas junto às partituras. “O pouco tempo de ensaio me fez perceber que eu não tenho o controle de tudo, mas tudo está sob controle”, declarou o diretor apaixonado pelo projeto. Prova disso, que o espetáculo foi muito bonito.

Sidnei Epelman e o encantamento com o Aprendiz

“A série Aprendiz de Maestro continua a encantar o público após 15 anos porque é única”, explicou orgulhoso o médico Sidnei Epelman, presidente da TUCCA. “Desde o primeiro espetáculo, sabíamos que seria um sucesso por ser um projeto inédito, com o objetivo de aproximar as crianças da música clássica. Institucionalmente, toda a renda obtida com a venda dos ingressos é destinada ao tratamento de crianças e adolescentes com câncer assistidos pela TUCCA em parceria com o Hospital Santa Marcelina, o que a torna ainda mais especial. No fim, a arte a serviço do cuidado traz benefícios a todas as partes envolvidas: ao parceiro, ao colaborador e, em especial, ao paciente”.

Um dos criadores da série, o maestro João Maurício Galindo lembra-se de quando um amigo assistiu ao episódio A Flauta Mágica ao lado do filho de 4 ou 5 anos. Como o garoto ficou encantado com o espetáculo, chegando em casa o pai colocou o vídeo da ópera original, com 2h30. “O menino ouviu a obra inteira e no dia seguinte pediu para ver de novo. A versão (lúdica) de 50 minutos serviu como um despertar. A semente fica na cabeça das crianças”.

“Somos um time e jogamos a favor das crianças e adolescentes carentes e doentes assistidas pela associação”, conta Ângela Dória, diretora de produção. “Anualmente são produzidos oito espetáculos, apresentados uma vez por mês, sendo que a produção é feita a toque de caixa, em um prazo curtíssimo. Lidamos com inúmeros imprevistos como perda de voz de solistas ou protagonistas, viroses e gripes de músicos, crises no nervo ciático ou coluna de convidados especiais. Mas tudo se resolve, não transparecendo no palco nada do que vivemos nos bastidores. O espetáculo é apresentado lindamente!”, completou a produtora que teve que lidar com o pé luxado de um dos bailarinos na véspera de O Aniversário Surpresa e precisou providenciar o ensaio de um novo dançarino durante boa parte da madrugada.

Como tudo começou

Em 1995, Clodoaldo Medina, então gerente de produção e eventos do Memorial da América Latina resolveu produzir para a série Concertos Matinais um espetáculo dedicado ao público infantil, com o mesmo rigor das sinfonias destinadas aos adultos. Para a empreitada, convidou o maestro João Maurício Galindo e o ator Cassio Scapin. O regente foi escolhido pela forma inusitada com que conduzia os concertos – dialogando com a plateia, sempre que possível. O ator, o eterno Nino, do Castelo Rá-Tim-Bum, seria o elo perfeito entre o antigo e o novo. Assim, no dia 12 de maio daquele ano, o público assistiu O Carnaval dos Animais, sob a batuta de Galindo e narração de Scapin.

Excepcional, o espetáculo chamou a atenção do Dr. Sidnei Epelmann, presidente da TUCCA, que encomendou um projeto semelhante, em 2002, para a Sala São Paulo.

Juntos, o maestro, o ator, a diretora Regina Galdino e diretora de produção Ângela Dória assumiram o desafio de desenvolver uma série que integrasse música erudita, teatro, circo e dança. Nascia, oficialmente, a série Aprendiz de Maestro.

O Aprendiz de Maestro foi protagonizada pelo boneco Alegro (Cassio Scapin) e depois pela bruxa da Operilda (Andreia Bassit). E já recebeu dezenas de convidados, como Jairo Mattos, Luciano Chirolli, Ilana Kaplan, Joaz Campos, Rita Gutt, Juan Alba, Patrícia Gasppar, Paulo Goulart Filho, Daniel Warren, Ana Luísa Lacombe, Raul Barreto e Carlos Moreno, além das companhias Lá Mínima, Galpão do Circo e Pia Fraus.

Paulo Rogério Lopes (atual diretor) criou o Príncipe Tuquinha, o intergaláctico de 15 mil anos. Batizado em homenagem à associação, Tuquinha é mencionado em vários espetáculos, mas só apareceu em O Pequeno Mozart, ocasião em que Thomaz Sampaio, filho do ator Fernando Sampaio (Cia. La Mínima), se desdobrou em vários papeis, entre eles o de Tuquinha – mas a cena dá a entender que ele é apenas um holograma.

 

 

Fernanda Araújo – especial para o Panis & Circus

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