Orientações Básicas

ORIENTAÇÕES BÁSICAS – MANUAL DE ORIENTAÇÃO

  • +Introdução

    Quando uma criança adoece, seu dia a dia, assim como o de sua família, geralmente sofre alterações durante um período. Isso porque o pequeno pode precisar de uma série de cuidados e atenção especial. Felizmente, a maioria das doenças não se estende por muito tempo e a rotina de todos logo volta ao normal.

    No entanto, quando uma menina ou um menino têm câncer, o zelo deve ser redobrado: há necessidade de tratamentos médicos diversificados, visitas constantes ao hospital, a possibilidade de internação, cirurgias, muitos exames e por aí vai. Mudanças em vários níveis ocorrem na vida não só do pequeno, mas de todos os familiares, sobretudo os pais. Os irmãos geralmente também são afetados, experimentando um sentimento de culpa além de medo e ciúmes.

    É quase certo que nenhum manual responderá todas as perguntas feitas pelas pessoas confrontadas com essa situação. Porém, este miniguia foi escrito para promover um melhor conhecimento sobre o câncer na infância, seus tratamentos, suas consequências e, principalmente, possibilitar um diálogo aberto entre a família, o paciente e a equipe responsável pela sua assistência. O esclarecimento inicial é, com frequência, o caminho para um maior entendimento sobre o problema e propicia o envolvimento de todos em prol da cura.

  • +O que é câncer

    Câncer é um termo usado para descrever um grupo de doenças. Cada uma delas tem um nome, um tratamento específico, bem como chances de cura peculiares. Embora os tipos de câncer sejam, de várias maneiras, diferentes dos demais, toda manifestação da doença, qualquer que seja sua nomenclatura, qualquer que seja a parte do corpo afetada, é no final das contas um mal relacionado às células do organismo.

    Milhões de células constituem o corpo humano – as do sangue, as da pele, as dos músculos, as dos ossos… Novos exemplares são produzidos constantemente por meio da divisão de cada unidade em duas, substituindo aquelas consideradas velhas. Ter câncer, ou doença maligna, significa que alguma célula sofreu uma alteração, e, a partir daí, multiplicou-se desordenadamente, fabricando, por assim dizer, descendentes cujo funcionamento não é normal. Essas células defeituosas têm a capacidade de se espalhar e de se alojar em várias partes do corpo. Quando isso acontece, fala-se em metástase.

    O câncer pode surgir no sangue – são as chamadas leucemias – ou nos diferentes tecidos e órgãos – são os tumores denominados de sólidos. Pouco se conhece sobre suas causas. O que se sabe, no entanto, é que não se trata de uma doença contagiosa.

  • +O câncer na infância pode ser curado?

    O câncer em crianças é raro e menos frequente que nos adultos. Seu desenvolvimento, em contrapartida, é mais rápido e geralmente se manifesta em algumas semanas. Felizmente, os tumores malignos que surgem nos primeiros anos de vida são bastante sensíveis a certos tratamentos, como a quimioterapia e a radioterapia. Dessa forma, atualmente mais de 60% dos pequenos acometidos pela doença se curam totalmente sem contar a crescente taxa de sobrevida de tantos outros. Com os recursos médicos adequados, a criança entra em remissão, isto é, não apresenta mais sinais e sintomas do problema. A remissão pode se prolongar por meses ou anos; após 5 anos, o garoto ou a garota são considerados curados. Algumas vezes, a doença volta a dar as caras. Quando isso acontece, fala-se em recaída ou recidiva. A recaída pode ocorrer como na primeira vez na qual o problema se manifestou ou atingir outro órgão.

    Os melhores resultados são alcançados com maior regularidade quando o tratamento é realizado em hospitais considerados centros de referência. Esses locais geralmente contam com uma equipe multidisciplinar formada por profissionais como o pediatra oncologista, o imunologista, o especialista em infecção, o endocrinologista, o neurologista, o radioterapeuta, o cirurgião, a equipe de enfermagem, o psicólogo, o nutricionista e o professor.

  • +Os tratamentos e suas consequências

    O tratamento para cada tipo de câncer geralmente segue uma rotina, um protocolo, como dizem os especialistas. Em outras palavras, trata-se de um plano pré-estabelecido para dar cabo do mal. Esse esquema terapêutico varia de acordo com o estadio da doença, que reflete seu grau de disseminação. Em geral, há quatro estadios, de acordo com o comprometimento da criança. O estadio é avaliado pelo exame médico e pelos inúmeros exames de laboratório.

    Existem três principais tipos de tratamento para o câncer na infância: cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Dependendo do tipo do tumor, do estadiamento da doença e da idade do paciente, utiliza-se um deles ou uma associação dessas opções.

    Os tratamentos provocam às vezes efeitos não desejáveis, que são chamados de secundários. Eles decorrem do método terapêutico utilizado e não da doença em si. Vêm à tona porque os meios de que se valem os especialistas para conter o câncer, tais como a radio e a quimioterapia, agem não apenas nas células doentes, mas também nas saudáveis.

    A cirurgia tem indicações precisas e sua finalidade é extrair o tumor, quando possível, ou parte dele, para diagnóstico. Em alguns casos, essa “operação” é tão complexa que envolve a retirada de um órgão ou a amputação de um membro. Ela é geralmente precedida e/ou complementada pela quimioterapia ou pela radioterapia.

    Na radioterapia, doses de radiação (tipos de raio-X) são aplicadas para destruir o tumor maligno. Para que as células e os órgãos sadios localizados perto do foco do câncer sejam protegidos, utilizam-se protetores especiais de chumbo. A área a ser irradiada é delimitada com marcas de tinta na pele que permanecem ali até o final do tratamento.

    As aplicações de radioterapia são diárias e realizadas em salas especiais. Essas sessões duram, em geral, poucos minutos. O número de aplicações e as doses de radiação variam de acordo com a idade do paciente e com a finalidade desejada. Nas leucemias, por exemplo, a radioterapia é utilizada para evitar que a doença atinja o cerébro. Esse recurso terapêutico pode causar um certo cansaço, queda de pelos na área irradiada e eventualmente queimadura leve na região.

    Atualmente, a quimoterapia é um dos principais meios empregados contra o câncer. Ela consiste em medicamentos que são administrados por diferentes vias: oral, intramuscular, endovenosa ou intratecal (no liquor) (vale explicar melhor, ou seja, falar onde está esse líquido e sua função bem en passant?).
    A quimioterapia tem por objetivo matar as células doentes, mas pode provocar efeitos secundários indesejáveis como náuseas e vômitos, queda de cabelo (alopecia), aftas, lesões na mucosa da boca (mucosite) e alterações no sangue. Essas alterações sanguíneas são chamadas de hipoplasias:

    • Se há redução no número de glóbulos vermelhos, leva à anemia;

    • Quando há queda nos níveis dos glóbulos brancos (leucopenia), deixa o organismo mais vulnerável a infecções;

    • E quando há diminuição das plaquetas (plaquetopenia), aumenta o risco de hemorragia.

    Essas formas de hipoplasia podem acometer simultaneamente. Nessa fase, pode ser necessário isolar a criança do convívio escolar e/ou social para diminuir ou evitar a probabilidade de contaminação.
    O tratamento quimioterápico pode durar poucos meses ou mais de dois anos. Isso depende de cada caso. Com frequência, depois da fase inicial, a quimioterapia é feita no ambulatório, sem necessidade de internação hospitalar. Mesmo depois que a criança entra em remissão, continua a receber doses de quimio por um período pré-estabelecido para tentar impedir que novas células malignas se desenvolvam.

    Pode-se reconhecer o paciente em quimioterapia pela perda parcial ou total dos cabelos, a alopecia. Isso muitas vezes é fonte de fantasias, insegurança e angústia, tanto para a criança como para os pais. É comum o uso de perucas, bonés ou chapéus para enfrentar essa situação provisória. Algum tempo depois da conclusão do tratamento, os fios crescem novamente.

    Além da perda capilar, a criança doente se depara de uma hora para outra com um ambiente muito diferente, às vezes angustiante, no qual há um trauma físico e psicológico. Em função de sua doença grave, em alguns momentos terá que ser separada do seu meio social, mas não deve ser afastada do mundo nem de sua família, amigos e atividades habituais.

    Apesar da gravidade do problema, da dificuldade do tratamento e de suas consequências, a criança pode e deve voltar à vida normal o mais rápido possível, reintegrando-se ao seu cotidiano. É importante que a confiança e a possibilidade de refletir, dialogar e discutir seja mantida entre a família, o paciente e a equipe, não apenas durante o tratamento, mas também depois de seu término. As conversas francas e abertas são às vezes difíceis, porém necessárias. Por outro lado, sua ausência ou mentiras podem ser prejudiciais.

  • +Informações importantes

    • Atualmente um maior número de crianças portadoras de câncer se cura e novos tratamentos são constantemente descobertos;

    • Se um pequeno tem câncer, isso não significa necessariamente que ele vá morrer, como há quinze anos;

    • Não existem vacina ou medicamentos preventivos contra a doença;

    • Se uma criança da família está com câncer, não significa necessariamente que os irmãos também terão;

    • Se alguma criança da família está doente, não significa que ela tem câncer;

    • Os irmãos não devem ser abandonados. É preciso conversar e explicar para eles toda a situação;

    • O câncer não é contagioso. Não é transmitido através do contato;

    • É importante que a criança e a família continuem suas atividades habituais – escolares, profissionais, sociais, esportivas, etc. – seguindo sempre orientação médica.