O Globo | Dois Cafés e a Conta com Paco Arango

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Cineasta mexicano radicado na Espanha lança filme com renda destinada a sete instituições brasileiras voltadas para o tratamento do câncer infantil

Há 17 anos, o cineasta mexicano Paco Arango, radicado em Madri, entrou pela primeira vez num hospital para crianças com câncer. Nunca mais saiu. Em 2005, criou a Fundação Aladina, para apoiar a causa. Solteiro, com “dez mil filhos”, número de crianças doentes que conheceu, ele é filho do fundador da cadeia de restaurante Vips, dona, por exemplo, dos Starbucks da Espanha e de Portugal. Paco, de 51 anos, esteve no Rio para lançar seu segundo filme, “O que de verdade importa”, que estreou quinta passada em 380 salas, com a renda líquida destinada a sete instituições brasileiras que atuam no combate ao câncer infantil: Instituto Desiderata (RJ), TUCCA (SP), GACC (BA), NACC (PE), Hospital Pequeno Príncipe (PR), Hospital da Criança Santo Antônio (RS) e Hospital de Câncer de Campo Grande Alfredo Abrão (MS). Tem sido assim em todo lugar. “É o primeiro filme 100% solidário do mundo”, diz. Em cada país, a Aladina escolhe organizações “responsáveis e eficientes”. O longa já foi visto por mais de 2,4 milhões de espectadores e arrecadou US$ 12 milhões na Espanha, México, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Peru, Chile, Panamá, Colômbia e Portugal. Nos EUA, foi lançado anteontem e, em outubro, é a vez de Itália e França. No filme, Alec é um engenheiro mecânico irresponsável que mora em Londres e conserta eletrodomésticos. Um tio lhe propõe quitar as dívidas desde que se mude para uma pequena cidade no Canadá. Lá, vai alterar sua forma de ver a vida.

O cineasta mexicano Paco Arango (Foto: Divulgação/Ana Roditi)

Como você se envolveu com a causa?

Nasci numa ótima família, sou saudável, pude estudar e trabalhar no que quis. Imagine se tivesse nascido num país em guerra? Por que nesse momento têm crianças morrendo de fome no Iêmen e estou tomando um café da manhã maravilhoso em Copacabana? Eu tinha que devolver o que recebi. Um amigo me sugeriu visitar o Hospital Niño Jesús, em Madri. Entrei no quarto de Andrea, de 13 anos, que vomitava. Há pessoas que saem correndo quando dão de cara com criança com câncer. Eu senti raiva. Queria impedir a doença, fazer com que ela não fosse uma barreira para que aquela menina pudesse ser feliz. Começamos a conversar e, em meia hora, estávamos gargalhando. Pensei: “Tenho que estar aqui.” Tem gente que gostaria de ter o dom de voar ou ser invisível. Eu queria ter o de curar. A forma que tenho de devolver minha sorte é com meu tempo, meu esforço, minha fundação e meus filmes.

Não é muito doloroso?

Andrea faleceu sete meses depois. Me senti muito mal. Já perdi muitas crianças. Tenho o coração quebrado em mais de 400 pedaços e cada um forma uma parte de mim. Mas tenho muita fé, que me permite seguir na luta. Imagino que elas estão numa situação boa. Meu filme tem happy end porque muita gente não quer ouvir falar de câncer infantil. Por isso, é importante que a comunicação sobre o tema seja alegre e tenha magia, que é abrir a porta da esperança para acreditar naquilo que pode ajudar você. Vi coisas horríveis e coisas incríveis em hospital. Há dois anos, estava na unidade de emergência orando com o pai de uma criança perto de morrer. Ano passado fui à primeira comunhão do menino, que está bem. No hospital, não há muito tempo para ficar triste. Eu estava um dia com Angel, de 6 anos, que fez um desenho para mim e faleceu. Saí chorando e fui chamado alegremente por Sergio, de 8 anos, que passara um mês sem sair do quarto, de porta fechada. Enxuguei as lágrimas. Não tinha o direito de entrar chorando em seu quarto.

E os pais, vocês também cuidam deles?

Muitas vezes cuidamos mais deles que dos filhos. Quando a família chega ao hospital, com o filho recém-diagnosticado, eu e minha equipe dizemos aos pais: “Hoje é o pior dia de todos. O câncer não é necessariamente o fim de tudo, tem 80% de cura no mundo. E provavelmente seu filho vai estar feliz no hospital. Em um, dois meses vocês verão isso com outros olhos.” É como dizer “relax.” A atitude é muito importante. Mais tarde, muitos falam: “Paco me disse isso um mês atrás, achei que estava louco, hoje vejo que é verdade.” E quando vou aos quartos sempre me dirijo primeiro aos irmãos sadios. Eles não entendem por que perderam os pais, que estão dedicados aos filhos doentes, e acham que fizeram algo de errado. Conheço muitos casos de irmãos com anorexia nervosa: “Se eu adoeço, eles vão me querer igual.” Temos que curar toda a família. E, quando uma criança morre, cuidamos dos pais por um ano inteiro.

Qual seu próximo projeto?

Acabei de rodar “Los Rodríguez e os más allá”, com Rossy de Palma e Geraldine Chaplin. É uma comédia com ares surrealistas. Um menino de 12 anos abre uma porta deixada pelo avô, que morreu, e vai para o planeta de onde ele veio. O avô é Plácido Domingo, que quis colaborar. Todo o dinheiro será doado para cuidados paliativos. A criança com um câncer sem cura pode ter uma vida digna.

Como tem sido usada a renda do filme atual?

Na Espanha, por exemplo, vai permitir que mil crianças com câncer frequentem nos próximos cinco anos os acampamentos Serious Fun Children’s Network, criados ao redor do mundo pelo ator Paul Newman. Elas passam uma semana sem os pais. E todos os “nãos” que estão acostumadas a ouvir ali viram “sins”. Num dos campos, uma menina de 15 anos que operou a perna e usa prótese subiu uma plataforma de 35 metros e fez tirolesa. Elas se curam dos problemas psicológicos que o câncer deixa. Quando retornam, os pais dizem: “Voltei a ter meu filho de antes da doença.” Meu primeiro filme, “Maktub”, também teve a renda doada. Fizemos o Centro Maktub para transplante de medula óssea do Hospital Niño Jesús. Já foram realizados 218 transplantes lá. O cinema pode mudar sua forma de pensar. Em “O que de verdade importa”, o protagonista é egocêntrico, até que uma menina com câncer lhe toca o coração. A mensagem do filme é: “A vida é um presente e todos temos a responsabilidade de ajudar, no que for.” Somos todos uma família, num planeta muito pequeno. Eu escolhi a causa da criança com câncer, você escolhe a sua.

O Globo – Rio – 30/09/2018

https://oglobo.globo.com/rio/dois-cafes-a-conta-com-paco-arango-23114130

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